Tudo sobre a "desfolha" - Elio Nowacki entrevista Carlos Tramujas

A desfolha é um dos assuntos que gera informações controversas. Você acha que este assunto merece uma
melhor atenção por parte dos bonsaístas?
 

Acho importante num primeiro momento definir o termo “desfolha”, que nada mais é do que a retirada das folhas de uma árvore através de métodos mecânicos e manuais ou químicos. Este processo poderá ser total ou parcial conforme a necessidade ou o objetivo que queremos alcançar. O método manual consiste na eliminação das folhas com tesouras, pinças desfolhadoras ou até mesmo as mãos e é o método que utilizamos usualmente no cultivo do bonsai. No caso da desfolha química, utilizam-se certos produtos como, por exemplo, a própria uréia em altas concentrações. É um método para se trabalhar com um grande volume de plantas e que deverá ser aplicado sempre com muito cuidado, dependendo do produto utilizado e da espécie em questão.
A desfolha sem dúvida é uma das técnicas utilizadas no bonsai que merece muita atenção. Normalmente as pessoas que estão iniciando na arte, têm um certo receio em realizá-la, até por ainda não terem muita intimidade com as plantas. Para quem não está familiarizado com o assunto, arrancar todas as folhas de uma árvore pode parecer um tanto agressivo, além de gerar dúvidas com relação à integridade da planta. Espero poder esclarecer aqui os principais pontos relacionados com a desfolha.


Pinça desfolhadora                                                                       Tesoura de cabo longo


Quais os principais motivos que devem levar alguém a fazer desfolha?

Realizamos a desfolha com as seguintes finalidades:

- Reduzir o tamanho das folhas da árvore.
Um dos objetivos principais da desfolha é a redução do tamanho das folhas, com a finalidade de obtermos resultados mais harmônicos e proporcionais, principalmente quando trabalhamos com bonsai de pequeno e médio porte. Como normalmente a desfolha é feita no verão onde o vigor da brotação é inferior ao que ocorre na primavera, as folhas se desenvolvem naturalmente menores. Após alguns anos consecutivos utilizando o método da desfolha é possível conseguirmos folhas com um tamanho até vinte vezes inferior ao tamanho das folhas de plantas cultivadas no campo, por exemplo.


- Aumentar a ramificação dos galhos.
 
Exemplar de Acer palmatum em meados do outono de 2013.

O aumento da ramificação dos galhos é resultado do estimulo das gemas dormentes e que estão presentes nas axilas das folhas. Quando retiramos as folhas, estimulamos diretamente o desenvolvimento destas gemas e muitas delas se transformam em novos e pequenos galhos. Para aumentar a probabilidade destas gemas dormentes se desenvolverem, devemos eliminar a extremidade do galho que foi desfolhado, pois desta forma inibiremos o seu crescimento apical, estimulando o desenvolvimento dos brotos localizados na parte interior. Do contrário, se não eliminamos a ponta do broto ou do galho, a força de crescimento irá para sua extremidade fazendo com que cresça em extensão, desenvolvendo desta forma, folhas ainda maiores o que inibirá a brotação na parte interna. Devemos lembrar que quanto maior a ramificação secundária e terciária da árvore, maior será a tendência desta planta em produzir folhas menores.


Desfolha em broto de Acer palmatum.

- Estimular o crescimento de certas regiões da planta, inibindo o desenvolvimento de outras.
Utilizamos também a desfolha para favorecer o crescimento em algumas zonas da planta, restringindo ao mesmo tempo o crescimento em outras partes, para desta forma equilibrarmos o desenvolvimento da planta como um todo. Se por exemplo, queremos engrossar um galho de um Acer, quando realizamos a desfolha, eliminamos as folhas de toda a planta, menos do galho que queremos engrossar, desta forma, esta região da planta continuará crescendo continuamente, enquanto o resto da planta, ficará com o crescimento parado, até que se inicie a nova brotação. É muito comum utilizarmos este tipo de desfolha quando queremos corrigir o diâmetro do ápice, quando este é demasiado fino em relação ao restante do tronco.

- Troca das folhas em árvores de folhas perenes, eliminando as folhas velhas, danificadas, e com o aspecto feio.
A desfolha neste caso serve para melhorar a estética da árvore, e é utilizada no caso de árvores com folhas perenes, ou seja, que não perdem as folhas no outono. Os ficus em geral são um bom exemplo, já que não perdem as folhas e normalmente no final do inverno, estas, apresentam um aspecto feito e amarelado. Nestes casos, é muito conveniente trocarmos as folhas todas da árvore, para obtermos uma folhagem nova.

        
Bonsai de Liquidambar com diferentes colorações outonais.


- Acentuar a coloração outonal em árvores de folhas caducas.
Um dos motivos pelo qual desfolhamos as árvores de folhas caducas é para acentuar a coloração outonal, assim como para garantir uma permanência maior das folhas na planta. Se mantivermos as folhas do crescimento primaveril, muitas vezes ao passar pelo verão as folhas ficam levemente queimadas e quando chegam no outono, elas secam parcialmente ao invés de assumirem a coloração outonal. Do contrario, se fazemos a desfolha no verão, as folhas chegam no outono, muito mais bonitas e vigorosas, tendo mais condições de assimilarem os açucares necessários  para a mudança de cor.

- Realizar aramações durante o verão com a finalidade de refinar a estrutura da árvore.
Quando desfolhamos as árvores no verão, podemos aramar sem problemas, primeiro porque a ausência total de folhas facilita muito a colocação do arame principalmente sem danificar brotos jovens e gemas e segundo porque o crescimento a partir da nova brotação que muitas vezes ocorrerá no final do verão, já não é tão intensa, o que propiciará que o arame fique muitas vezes até o final do inverno.


Utilizando a tesoura de cabo longo para cortar o pecíolo das folhas.

Sabemos que muitas espécies não aceitam a desfolha. Poderia nos exemplificar? E porque?

Existem duas situações básicas em que não realizamos a desfolha, a primeira delas é quando a espécie não necessita, ou seja, já apresentam folhas com um tamanho bastante reduzido, como é o caso da Serissa, do Cotoneaster, ou da Lonicera. Nestes casos a aplicação desta técnica é inviável, primeiro pelo trabalho exaustivo e depois pelo pequeno resultado obtido. A segunda situação está relacionada com a dificuldade que algumas espécies apresentam em brotarem após a eliminação total das folhas. Como experiência pessoal posso comentar que, sem dúvida, podemos aplicar esta técnica na grande maioria das árvores que são trabalhadas como bonsai, principalmente se aplicamos a técnica de uma maneira correta e respeitando sempre a integridade da árvore. Ao longo dos meus anos dedicados à arte do bonsai, posso dizer que já desfolhei quase todas as espécies que passaram pelas minhas mãos, com resultados bastante satisfatórios. Não posso deixar de comentar sobre as espécies de coníferas em geral, como o caso dos Juniperus, Pinus e Chamaecyparis entre tantas outras, que não aceitam a aplicação da desfolha, com o risco de perdermos a planta. Por outro lado, a grande maioria das caducifólias suporta bem esta técnica, com poucas exceções, como é o caso do Ginkgo biloba,  que apresenta uma brotação falha após a aplicação da técnica. Mesmo no Acer palmatum atropurpureum, por exemplo, que é frequentemente citado na literatura como uma espécie que não tolera a desfolha, pela dificuldade que apresenta em desenvolver suas gemas dormentes, tenho aplicado a desfolha com muito sucesso. Já as pitangas, jabuticabas, e outras mirtáceas toleram perfeitamente a aplicação desta técnica. A conclusão a que chegamos com relação a esta técnica é que a medida em que adquirimos mais experiência dentro da arte e desejamos cultivar bonsai com mais intensidade, a desfolha se torna indispensável.


A pinça desfolhadora é uma excelente ferramenta para a realização da desfolha.


No caso das caducifólias, devemos fazer a desfolha se elas por si próprias não se desfolharem na época propícia?

Este já é outro caso. Como comentei anteriormente, podemos ter como referência de melhor época para realizarmos a desfolha, meados do verão, ou seja, Janeiro e Fevereiro, pois nesta época as árvores têm reservas suficientes para brotarem, mas não com o mesmo vigor da primavera. Na realidade quando fazemos a desfolha no verão, induzimos a planta a pensar que está diante de uma nova primavera. No caso da sua pergunta em específico, realizaremos a desfolha, só que na época de perda normal das folhas, ou seja, na entrada ou entre o outono. Isto se faz necessário quando cultivamos árvores caducas em regiões onde o inverno não é rigoroso o suficiente para fazer as plantas entrarem em dormência. Em alguns casos as árvores cultivadas nestas condições perdem apenas parte das folhas, e o restante deve ser eliminado manualmente. Este processo ajuda um pouco na adaptação da árvore, mas sem as horas de frio suficientes, dificilmente esta planta se desenvolverá em sua plenitude, como, por exemplo, apresentando as bonitas colorações outonais.


Bonita coloração outonal do Acer rubrum (Red Maple).

E a desfolha parcial para incentivar a brotação. Poderia nos esclarecer?

A desfolha parcial já foi comentada anteriormente, e é uma das maneiras de estabelecermos um equilíbrio na harmonia entre todas as zonas da árvore. Podemos utilizá-la para engrossar um primeiro galho, por exemplo, deixando-o crescer a medida em que desfolhamos o restante da planta, ou mesmo para engrossar o ápice no caso de uma poda radical com a substituição do líder. O importante a entendermos no caso da desfolha parcial, é que o elemento da planta que continuar com folhas, seja o galho, o ápice ou mesmo um pequeno broto, ele será privilegiado em crescimento, em relação ao restante dos elementos que formam a estrutura da árvore e que foram desfolhados. Quando falamos em desfolha parcial total da planta, nos referimos na eliminação de uma certa porcentagem da massa verde, para facilitarmos a ventilação e a entrada do sol, como no caso das Bougainvilleas (Primaveras) que brotam com muito vigor, formando massas de folhas demasiadamente densas e compactadas. É importante nestes casos eliminarmos as folhas velhas e grandes e tentarmos fazer com que a copa da árvore respire melhor. Desta forma também prevenimos que os pequenos brotos situados no interior da árvore não  sequem por falta de luz. Esta operação é considerada mais uma limpeza do que propriamente uma desfolha.


Maneira correta de cortar o pecíolo das folhas do Ficus.

Mesmo considerando que nosso país tem dimensões continentais, Carlos, dá para formular uma regrinha sobre desfolha com relação às épocas?

Se entendermos o processo, podemos realizar a desfolha, mesmo sem olharmos para o calendário. O primeiro que devemos observar é que as folhas estejam realmente maduras, ou seja, no máximo do seu tamanho natural e desenvolvimento. O segundo ponto está em observarmos o crescimento geral da planta. O momento da desfolha é justamente entre uma fase de crescimento e outra. Isto pode parecer confuso, mas é fácil de entendermos se observamos, por exemplo, o crescimento de um Acer que começa a se desenvolver com vigor na primavera, onde os brotos podem atingir mais de um metro se deixados crescerem livres. Após este período de brotação intensa, a planta para de crescer por um período, como se estivesse descansando, isto ocorre normalmente no final da primavera e continua até praticamente a metade do verão, onde reinicia seu crescimento, só que desta vez com menos vigor e intensidade. O ponto correto para realizarmos a desfolha é momentos antes da planta reiniciar esta segunda fase de crescimento. No caso do Acer e das caducifólias em geral é mais fácil identificarmos esta situação, mas com um pouco de prática passaremos também a identificar nas demais espécies. Estes “melhores momentos” é que definem a quantidade de desfolhas que podem ser realizadas durante o ano, sem estressar demasiadamente as plantas. As bougainvilleas, por exemplo, podem facilmente ser desfolhadas duas ou até três vezes ao longo do ano, principalmente em regiões com climas favoráveis e sem invernos definidos. Como regra básica para quem esta começando, a metade do verão sem dúvida, é o melhor momento. Outro conselho é que comecem apenas com uma desfolha por ano independente da planta, até conhecerem melhor as espécies com que estão trabalhando no momento.


Aparência do galho de Ficus após a realização da desfolha.

Planta debilitada ou doente pode ser desfolhada?

Este é um dos principais comentários a ser feito nesta entrevista. Não adianta de nada conhecermos as técnicas em profundidade, aplicá-las corretamente, se nossas árvores não tem condições de suportá-las. A desfolha jamais deverá ser aplicada em plantas debilitadas, fracas ou mesmo doentes, com risco de perdermos galhos inteiros e até mesmo a planta toda. A recuperação da planta após a eliminação total das folhas requer uma energia muito grande, portanto devemos antes de fazer a desfolha estarmos atentos para três pontos importantes O primeiro está relacionado com a adubação, pois se adubarmos a planta no momento da desfolha existe a probabilidade das folhas novas virem ainda maiores que as anteriores. Para evitarmos esta surpresa é conveniente realizarmos a ultima adubação duas ou três semanas antes de desfolharmos, sendo que voltaremos a adubar se for necessário, somente depois do amadurecimento completo das folhas novas. O segundo ponto diz respeito à aplicação da desfolha na época mais adequada, principalmente em regiões com estações definidas, com é o caso do sul do Brasil. Se desfolharmos muito tarde nestas regiões, a planta não terá capacidade de brotar antes de entrar no outono e enfraquecerá bastante. O terceiro ponto está diretamente relacionado com os cuidados básicos após a desfolha. Não devemos esquecer que a absorção de água pelas plantas com a ausência total de folhas é muito pequena ou quase nula, portanto é conveniente também controlarmos a frequência da rega, deixando que o substrato seque levemente entre uma rega e outra. Após a brotação, voltaremos a regar de forma normal. O excesso de água no momento da brotação também poderá aumentar significativamente o tamanho das folhas. O sol é um redutor natural do tamanho das folhas, portanto o melhor após a desfolha é colocarmos a planta a pleno sol, se por acaso for uma espécie mais sensível, deveremos protegê-la apenas nas horas mais quentes do dia. Plantas cultivadas em ambientes sombreados têm naturalmente as folhas maiores do que aquelas cultivadas a pleno sol. Se por acaso temos uma planta doente ou debilitada, deveremos sempre em primeiro lugar recuperar esta planta, antes de aplicarmos qualquer tipo de técnica de poda ou de modelagem.


Coloração outonal em Acer palmatum. A desfolha foi realizada em Janeiro.

Cronologicamente, desfolha, aramação, poda de raízes e transplante podem ser feitos num mesmo momento?

Podem em algumas espécies, desde que sejam previamente preparadas para aguentar isso tudo de uma só vez. Como a maioria das desfolhas são realizadas em pleno verão, este sem dúvida não seria o melhor momento para transplantarmos, mas o que podemos fazer sem dúvida é passar um bom arame. As espécies de Ficus em geral toleram a aplicação destas operações simultaneamente. Na Espanha, onde trabalhei, os Ficus eram desfolhados, aramados e transplantados de uma só vez e durante o pleno verão. Os motivos principais são, que a brotação da primavera como é mais intensa resultava em brotações muito vigorosas e, portanto com folhas muito grandes. Outra coisa é que ajudava também a aliviar um pouco o excesso de tarefas com as demais espécies na entrada da primavera. As técnicas de desfolha e aramação quase sempre devem caminhar juntas, uma complementando a outra.

 

Carlos, muito se fala em desfolha manual ou cortando a folha com tesoura preservando o pecíolo. Poderia nos esclarecer esse assunto?
A desfolha com a pinça desfolhadora ou mesmo com a tesoura é muito trabalhosa, principalmente em árvores grandes e frondosas e muitas vezes durante o processo dá vontade de arrancarmos as folhas com as mãos para terminarmos de uma vez.
Antes de comentarmos sobre plantas específicas, devemos entender o que nos leva a optar por um método ou por outro. Sempre o método manual, arrancando as folhas com os dedos será o mais fácil e o mais rápido, mas para aplicá-lo com segurança, antes devemos observar as gemas dormentes nas axilas das folhas (ponto de inserção do pecíolo no galho) e fazermos um teste. Arrancamos algumas folhas isoladamente e observamos o estado em que ficou a gema dormente. Em algumas situações quando arrancamos uma folha, a gema se destaca do galho e acaba saindo junto com ela, presa ao pecíolo, em outros casos, apesar da gema permanecer no galho fica muito danificada. Um dos fatores de extrema importância que ajuda a minimizar estas dificuldades é que sempre devemos levar em conta o sentido em que arrancamos as folhas e este deverá ser sempre no sentido da extremidade do galho. O Acer palmatum é uma espécie que devemos desfolhar sempre utilizando a tesoura, pois suas gemas são muito sensíveis. A maneira correta de fazermos é cortarmos os pecíolos das folhas pela metade, sendo que depois de alguns dias, estes cairão sozinhos. No Acer buergerianum, por exemplo, a desfolha pode ser manual, e o que fazemos é fecharmos a mão na base do galho com uma leve pressão e puxamos em direção a sua extremidade, arrancando desta forma todas as folhas. Se por acaso não saírem todas, no final do processo repassamos galho por galho eliminando as que permaneceram, mas sempre prestando a atenção no sentido em que as arrancamos. Com os ficus em geral podemos proceder da mesma forma, assim como com as jabuticabeiras, pitangueiras, ulmus e muitas outras espécies.

    

Acer palmatum no final do verão após a desfolha, e o mesmo exemplar no final do outono.

 

Bem, acho que tivemos uma verdadeira aula sobre desfolha que, com certeza, estará ajudando em muito a todos nós praticantes dessa nobre arte. Muito obrigado Carlos.

 

Espero em outros momentos poder voltar a dar a minha contribuição para divulgação a arte do bonsai

Entrevista com Carlos Tramujas realizada por Elio Nowacki, então presidente da A.P.B. (Associação Paranaense de Bonsai).

Julho/2007

*Fotos Carlos Tramujas



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